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O terceiro ato
Fiz um fichamento sobre construção de roteiro e anotei a estrutura clássica. Primeiro ato: apresentam-se os personagens, o mundo e o conflito central. Segundo ato: o conflito se desenvolve e surgem os obstáculos. Terceiro ato: o conflito se resolve e a história se encerra. É o desenho que sustenta quase tudo o que se conta no ocidente, e ele funciona. Um filme sem terceiro ato deixa a plateia irritada. Uma peça sem terceiro ato parece inacabada. E eu passei o último ano descobrindo que os meus melhores textos não têm o terceiro. Reli tudo o que escrevi desde 2006. E o que fui encontrando, texto após texto, era o mesmo…
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Anima
Escrevi, numa resenha sobre teatro de bonecos, que no teatro de formas animadas a anima é o ator-manipulador. Que ele é o agente alma, o espírito que dá dinâmica à arte. Escolhi essa palavra sem pensar, e ela é a raiz de tudo. Animar é dar alma. Anima, em latim, é sopro, é aquilo que faz respirar. Formas animadas não são formas que se movem: são formas que receberam alma de alguém que tinha alma para dar. E o gesto é sempre o mesmo. Alguém pega uma coisa que não vive, pano, madeira, papelão, e sopra dentro dela alguma coisa que não estava lá. A matéria é inerte antes e…
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Não lembro quem era
Em 2010 escrevi um texto de despedida. Falava de constelações, de chuva tentando redesenhar traços no chão, de um reencontro futuro. Falava das digitais de amor que alguém tinha deixado impressas na minha pele. Reencontrei esse texto agora, ao revisar os arquivos antigos. A dor daquela época está inteira ali dentro, e era grande. Não lembro para quem escrevi. Não sei se a pessoa morreu ou se apenas foi embora. Hoje dói outra coisa: ter esquecido quem deixou marcas que eu jurei que não sairiam. Guardei o texto. Não guardei a pessoa.
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Talvez por medo, talvez por fé
Aos vinte e um anos eu via as moças no culto e não dirigia a palavra a nenhuma. Pedia que Deus escolhesse. Escrevi, naquele mesmo ano, uma frase que não consegui melhorar em duas décadas: assim me escondia atrás dessa verdade, talvez por medo, talvez por fé. Elas foram embora sem que eu conhecesse suas vozes. A frase permaneceu porque o problema permaneceu. Existe um silêncio que guarda e existe um silêncio que foge, e por dentro os dois são idênticos. Usam o mesmo vocabulário. Explicam-se com prudência, com espera, com discernimento, com confiança no tempo de Deus. Quem está calado por covardia não sente covardia: sente serenidade, ou coisa…
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O que permite o progresso
No meio de um relatório de estágio sobre jogos teatrais, escrevi um parágrafo que não tem nada a ver com teatro. Conhecer o caminho não é só um ato de seguir adiante, mas também uma ação de retrocesso. O conhecimento, inclusive, é um ato de retrocesso. É uma conversão. É um retorno ao estado anterior. É voltar e também é avançar. E terminei com a frase que resume: O que permite o progresso é o retrocesso. Escolhi a palavra conversão sem pensar, e é a palavra da minha outra vida. No púlpito, converter-se é mudar de direção. O termo bíblico traz exatamente isso: virar-se, dar meia-volta, voltar. Não é acrescentar…
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A linha passa na minha mesa
Sousa Santos descreve a linha abissal como aquilo que separa o que conta como conhecimento válido do que sequer é considerado conhecimento. Resumi o artigo dele e escrevi sobre saberes tradicionais, coloniais e subalternos, como quem discute um problema que acontece longe. A linha passa na minha mesa. Coordeno assistência estudantil num campus de instituto federal. Boa parte do meu trabalho consiste em decidir, com a equipe, quem recebe auxílio. E o processo funciona assim. Uma família diz qual é a situação dela. E essa declaração, sozinha, não conta. O que conta é o comprovante. Contracheque, extrato, declaração de trabalho informal reconhecida em cartório, conta de luz no nome de…
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O que a minha avó sabia
Boaventura de Sousa Santos chama de pensamento abissal a linha que separa o que conta como conhecimento do que sequer entra na disputa. O ponto dele é mais forte do que parece. Não se trata de considerar certos saberes inferiores. Trata-se de produzi-los como inexistentes, de modo que nem se apresentem como candidatos. O que está do outro lado da linha não é conhecimento ruim. Não é conhecimento. E a proposta dele, a ecologia dos saberes, é reconhecer que existe conhecimento válido produzido fora dos lugares que emitem certificado. Resumi esse artigo em 2024. Escrevi que a abordagem é inclusiva, democrática e necessária. E em abril de 2026 a minha…
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A moral provisória
Resumi o Discurso do Método e deixei de fora a parte que mais me diz respeito. Descartes decidiu duvidar de tudo. Suspender qualquer coisa que não se apresentasse com clareza suficiente para excluir a dúvida, e reconstruir o conhecimento a partir do que restasse. E aí ele fez uma coisa que quase ninguém comenta. Na terceira parte, antes de começar a demolição, ele adota o que chama de moral provisória: um conjunto de máximas para viver enquanto a dúvida estivesse em andamento. Decidiu obedecer às leis e aos costumes do seu país. Decidiu conservar a religião em que fora criado. Decidiu ser firme e resoluto nas ações, seguindo até as…
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Quem tem o campo
Num projeto de pesquisa que escrevi, há uma única frase pessoal, e ela está na primeira linha da introdução. Diz que a escolha do tema veio da minha experiência profissional como profissional da educação e artista. É verdade. Sou servidor público federal na educação há quase vinte anos, coordeno, dou aula, prego, e me formei em Teatro aos quarenta. Depois dessa frase, o projeto tem vinte páginas e não volta a mencionar nada disso. O que vem é Adorno, Bourdieu, Freire, Gadamer, Rancière, Benjamin, Larrosa. Todos excelentes, todos pertinentes, todos citados corretamente. E nenhum deles esteve na escola que eu observei. Isso não é um erro de escrita acadêmica. É…
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O projeto que virou outra tese
Encontrei, revirando arquivos, um projeto de pesquisa de doutorado que escrevi e que não é o doutorado que eu faço. A pergunta de pesquisa daquele projeto era esta: Como a produção artística pode contribuir para a formação de subjetividades críticas e sensíveis nas práticas educacionais? O projeto queria estudar o que a arte faz com uma pessoa. Como a experiência estética muda o jeito de alguém olhar o mundo. Como a formação de um sujeito sensível acontece, e o que a escola tem a ver com isso. A tese que eu escrevo hoje investiga outra coisa: O que acontece quando o processo se emancipa do propósito. Levei um tempo para…



























